
1º lugar - A história é um "causo" sério!...
Alayr Paulo Teixeira
Técnico Judiciário (aposentado)
Belo Horizonte
A democracia se reavivava, a história da Justiça Eleitoral acontecia e eu estava lá, participando das glórias e mazelas nas lutas pelo aperfeiçoamento e a expansão da cidadania brasileira. Alguns dos mais interessantes momentos de que me lembro aconteceram na época da primeira eleição direta à Presidência, após o regime militar. O primeiro turno se daria exatamente no Centenário da República, 15 de novembro de 1989!...
Um novo dispositivo legal trouxera a possibilidade de os adolescentes, com dezesseis e menos de dezoito anos, terem a opção de votar. Esse contingente enorme de possíveis eleitores e o entusiasmo da população causavam tumulto nos cartórios eleitorais da Capital e a solução foi criar vários pontos de cadastramentos em locais de fácil acesso, usando trailers da Polícia Militar de Minas Gerais.
Designado para a Praça Sete de Setembro, assustei-me ao ver a enormidade das filas para o atendimento. A maioria era de mocinhas e várias traziam um bebê no colo, na fila preferencial. Percebemos que algo estava errado, ao atendê-las, pois observamos que mães diferentes traziam o mesmo rechonchudo bebê, que estava sendo "alugado", a troco de vale-transporte ou algumas moedas, pelo uso da fila preferencial!...
Novas mães, novas crianças, novos eleitores... Novo Brasil?
Pois é... Preenchíamos em manuscrito a ficha de inscrição, com caneta esferográfica sobre papel carbonado no verso, gerando cópia. Os erros eram consertados aplicando-se o líquido conhecido como "corretivo".
Um jovenzinho furou a fila e entrou no trailer. Não poderíamos expô-lo, recusando-o, o que causaria um tumulto inimaginável, então um colega o recebeu, indicando-lhe uma cadeira entre as mesas, dizendo:
- Assenta aí, que já vamos te cadastrar...
Parece que o jovem não entendeu bem a palavra "cadastrar" e se encolheu todo, protegendo-se. Para piorar a situação, eu tinha errado um preenchimento e notei que os tubos de corretores estavam na outra mesa. Gesticulando, lhe pedi que fosse lá buscar e falei alto, quase gritando:
- Passa um corretivo pra ele aí, colega!...
O assustado jovem se apavorou mais ainda com o "corretivo", olhou para todos os lados e somente não saiu pela janelinha de ventilação, porque não caberia nela. Deixando-nos perplexos, num rompante, saiu pela porta correndo e desapareceu, sem olhar pra trás!
Voltou? Votou? Pintou o rosto, protestando, três anos depois? Nunca soubemos, mas...
A história continua, desfilando garbosa, toda enfeitada de causos...